segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

morto-Vivo

a eu adoro minha cidade. ta certo que as vezes acontecem coisas estranhas por aqui, quer dizer, não é em todo lugar do mundo que os sinos das igrejas rebatulam ao meio dia e quatro. certa vez estava eu la no centro da cidade mais bonita do mundo esperando a garota mais bonita do mundo aparecer, mas assim como a cidade, a garota não era muito pontual. mas eu era. esperava, fielmente, mas ae eu decidi parar de olhar o relógio e olhar a cidade. olhava as pessoas em frente ao odeon, buscando pensamentos pra ocupar o tempo, mas eles não surgiam. a cidade é como as garotas, não são muito pontuais não, nem no sentido de inspiração. a, mas as minhas reflexões sobre o nada e o lugar nenhum foram terrivelmente interrompidas por uma indivídua, (como se flexiona indivíduo? essa é a palavra que transforma pessoa em coisa, portanto, deve ser inflexível) que limpava suas entranhas com um fragmento de saia jeans que já não fazia parte do corpo dela - não deveria nem fazer parte do armário de pano de chão dela – e banhava-se com o vento em suas caracas, visivelmente preocupante, enquanto cantava assustadoramente alto sambas de uma época que eu gostaria de ter conhecido, bem no meio da cinelândia. as veias saltando de sua garganta sugeriam que aquilo seria a próxima “peça” a se desprender de seu corpo. pronto, era tudo que eu precisava, agora eu já tenho alguns motivos pra ocupar a minha mente, enquanto a menina não chega. na escola eles costumam chamar esses casos de “desvio social”. isso me lembra os lamentos desesperados pelos playboys que botaram fogo no mendigo não sei aonde. eu sei que la na comuna “brasil” encheram o saco com tópico do tipo “que absurdo – botaram fogo no mendigo”. eu não to aqui pra defender sequelado não, muito menos sequelado filhinho de papai, mas eu não consigo enxergar a distancia do que põe fogo e do que critica aquele que põe fogo. eu sei que pode parecer meio radical, mas essas pessoas já estão mortas. não tem sonhos, não tem ambições, não tem motivos pra continuar vagando miseravelmente nesse mundo. são a escória da humanidade, são os miseráveis de um mundo miserável. imagina o que é ser miserável num mundo miserável? ta, estão mortas, alguém discorda? a única diferença entre um cadáver e a indivídua é que o cadáver não está aos nossos olhos. olha lá, a pessoa limpando a vagina com um pedaço de pano sujo de cocô cantando noel rosa no meio da cinelândia. OLHA PORRA. ninguém olha. mesmo com todo o malabarismo miserável da moça, ninguém olha. mesmo com a buceta moribunda de fora, ninguém olha. retiro o que eu disse, o cadáver e o mendigo não tem diferença nenhuma. ou melhor, tem sim. talvez a remota possibilidade de se fazer reviver um morto-Vivo, ou pessoa-coisa, ou desvio social ainda reside no mais profundo canto da espinha de quem é de fato Vivo. não é justo que as pessoas condenem quem os deu a morte, se elas mesmos não têm o bum de os dar a Vida. alguém anuncia a sua chegada, alguém assustadoramente Viva. e bonita. ela não teve que fazer nenhum malabarismo pra eu notar que ela existe. ela me lembra que eu também estou Vivo, e agora chegou a minha vez de esquecer dos mortos. eu amo a Vida.